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Endividamento bate recorde na Justiça: o que 1,2 milhão de processos revelam sobre saúde mental

Foto do escritor: Leggal
Leggal
há 1 dia
5 min de leitura

Atualmente, existem 1.239.537 de novos processos para cobrança de dívidas privadas que a Justiça brasileira recebeu em 2025, sendo até agora, o maior número da série analisada. 


imagem meramente ilustrativa: processos jurídicos
imagem meramente ilustrativa: processos jurídicos

Cada um desses processos representa uma pessoa que chegou ao limite, onde as tentativas de negociação já não foram suficientes e a vida financeira se tornou um caso judicial. E essa pessoa, muito provavelmente, tem um emprego, uma equipe, um gestor, e aparece todos os dias tentando dar conta das suas entregas enquanto carrega um peso que não está visível em nenhum relatório de desempenho.


Entender o que está por trás desse dado, para quem cuida de pessoas dentro das organizações, é uma obrigação estratégica e, desde maio de 2026, também uma obrigação legal.



O endividamento dos brasileiros chegou a um nível que não dá para ignorar


Os 1.239.537 novos processos registrados em 2025 representam uma alta de cerca de 60% em relação a 2020, quando foram registradas 772.645 ações. O crescimento foi contínuo, ano a ano, sem nenhuma interrupção. O volume superou 1 milhão pela primeira vez em 2023, com 1.131.730 ações, e avançou para 1.194.184 em 2024, antes de chegar ao recorde de 2025.


E 2026 não dá sinais de alívio. Entre janeiro e março deste ano, foram abertos 295.541 novos processos de execução de títulos. O ritmo atual sugere que o recorde pode ser quebrado novamente.


Quando um processo chega à Justiça, o colaborador já viveu meses, às vezes anos, de pressão financeira acumulada. Cobranças, renegociações frustradas, tentativas de empréstimo, conversas difíceis com a família. O processo judicial é o capítulo final de uma história que começou muito antes, dentro de casa, e que provavelmente já chegou ao ambiente de trabalho sem que ninguém tenha percebido.


O cenário macroeconômico só aprofunda essa realidade. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da CNC apurou que 80,4% das famílias brasileiras tinham dívidas em março de 2026. No mesmo mês de 2025, o índice era de 77,1%. E dados do Banco Central indicam que o endividamento com o sistema financeiro chegou a 49,8% da renda acumulada em 12 meses, com pagamentos comprometendo 29,3% da renda mensal.


Quase 1/3 do salário que entra vai diretamente para pagar o que já se deve. O que sobra raramente é suficiente.



Saúde mental e endividamento: uma conexão que a gestão de pessoas precisa encarar


A pressão financeira não fica na porta da empresa. A pressão financeira que nasce no orçamento doméstico chega ao ambiente corporativo em forma de ansiedade, perda de concentração, queda de produtividade e, inclusive, em decisões de carreira tomadas sob pressão.


Especialistas da área de saúde organizacional afirmam que "o endividamento é um pilar de sustentação da saúde mental". Colaboradores endividados dormem pior, se alimentam mal e apresentam queda de produtividade. O impacto não é pontual. Ele contamina o dia a dia, a relação com colegas, a tomada de decisão e o engajamento com o trabalho.


O aumento do estresse associado ao endividamento impacta diretamente a saúde mental e física dos trabalhadores. Estudos da SalaryFits revelam que 66% dos trabalhadores relatam um aumento do estresse devido a dívidas.


O estudo "The Employer's Guide to Financial Wellbeing", realizado no Reino Unido com mais de dez mil trabalhadores, apontou que funcionários endividados ou que têm preocupações com dinheiro produzem, em média, 15% menos do que seus colegas.


Do ponto de vista dos afastamentos, o cenário é ainda mais preocupante.

67% a mais que no ano anterior e o maior número da série histórica, colocando ansiedade, depressão e síndrome de burnout entre as principais causas de benefícios por incapacidade. 


Quando a dívida vira processo na Justiça, a saúde mental do colaborador já foi testada por um longo período. O RH está preparado para identificar isso antes de chegar a esse ponto?



A NR-1 tornou a saúde mental uma exigência legal para as empresas


Se antes o cuidado com o bem-estar emocional dos colaboradores era visto como diferencial, agora ele é lei. A partir de maio de 2026, entrou em vigor a atualização da Norma Regulamentadora 1 - a NR-1, do Ministério do Trabalho e Emprego, que passa a prever expressamente a inclusão dos riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais das organizações. A medida obriga empresas de todos os portes com contratos regidos pela CLT, incluindo órgãos públicos, a identificar, avaliar e controlar fatores que possam afetar a saúde mental dos trabalhadores.


O descumprimento pode resultar em autuações, multas administrativas e repercussões em eventual responsabilização judicial, se comprovada a omissão do empregador.


Na prática, isso significa que o endividamento, enquanto fator de estresse crônico com impacto direto na saúde mental, entra no radar do que as empresas precisam mapear e endereçar.



O endividamento, a gestão de pessoas e a janela de oportunidade para o RH


O dado de 1,2 milhão de processos é também um espelho do que está acontecendo dentro das organizações brasileiras agora. São colaboradores que chegam ao trabalho carregando um processo judicial ou o medo de ter um. Que passam o expediente pensando em como pagar a próxima parcela. Que tomam decisões de carreira motivadas pela pressão financeira, não pela vocação ou pelo projeto de vida.


Para a área de gestão de pessoas, esse cenário abre uma janela de oportunidade real. As empresas que reconhecem o sofrimento jurídico e financeiro do colaborador como parte do cuidado integral com a pessoa têm a chance de construir um vínculo de confiança genuíno. No gerenciamento de riscos psicossociais proposto pela NR-1, o endividamento é um tema que se reflete na qualidade de vida e no bem-estar dos profissionais.


"O mercado enxerga e valoriza a organização preocupada em reter talentos e aumentar a produtividade com uma atuação humana e voltada ao bem-estar", destaca a ABRH-SP.


Benefícios Corporativos além do óbvio: o papel do cuidado jurídico na vida do colaborador


Muito se fala em benefícios corporativos para saúde mental: terapia online, plataformas de mindfulness, programas de bem-estar... e todos têm valor.

Mas há uma dimensão do sofrimento do colaborador endividado que ainda é ignorada pela maioria das estratégias de cuidado: a dimensão jurídica.


Quando a dívida escala, ela deixa de ser apenas um problema financeiro e se torna um problema legal. Cobrança abusiva, negativação indevida, cláusulas contratuais que o colaborador não entendeu ao assinar, renegociações feitas sob pressão sem a orientação adequada. São situações concretas, vividas por milhões de brasileiros, que têm solução, mas que exigem conhecimento jurídico para ser navegadas com segurança.


É aqui que o cuidado jurídico oferecido como benefício corporativo faz a diferença na vida real. Para essa parcela da força de trabalho, os benefícios que fazem a diferença são aqueles que ajudam a resolver problemas reais, que chegam onde o salário não chega e onde as soluções convencionais não alcançam.



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