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RH: precisamos falar sobre a epidemia do endividamento

  • Foto do escritor: Leggal
    Leggal
  • 16 de jul.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 28 de jul.

Em 2026, o Brasil atingiu um dos maiores níveis de endividamento já registrados, mas o endividamento deixou de ser apenas um problema financeiro. Hoje, ele também é um desafio para o gerenciamento de pessoas, e os dados mostram a urgência do tema.


Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC/CNC), mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o maior índice da série histórica.


imagem - dívidas
imagem meramente ilustrativa - dívidas

Paralelamente, dados da Serasa mostram que o país ultrapassou 83 milhões de pessoas inadimplentes, o equivalente a mais da metade da população adulta brasileira. Além disso, o Banco Central reforça esse cenário: o comprometimento de renda das famílias, atingiu o maior patamar da série histórica.


Embora esses números pareçam ser relevantes apenas sob uma ótica econômica, esse cenário é um reflexo de uma frágil cultura de cuidado.


Já é sabido que o colaborador não deixa seus problemas financeiros na porta do escritório, por isso, é urgente, que as empresas comecem a observar os impactos diretos dessa realidade na gestão de pessoas, na produtividade e no clima organizacional.


A preocupação constante com contas atrasadas, juros elevados, renegociações e cobranças acompanha sua rotina, influencia seu bem-estar, afeta sua saúde mental e, inevitavelmente, interfere em sua capacidade de trabalhar.


Por isso, falar sobre endividamento hoje também é falar sobre produtividade, clima organizacional, retenção de talentos e gestão estratégica de pessoas.



A epidemia silenciosa do endividamento


O aumento do custo de vida, um crédito mais caro, o uso recorrente do cartão de crédito e o comprometimento crescente da renda, fizeram com que o endividamento deixasse de ser uma situação pontual para se tornar um fenômeno estrutural no país.


A própria CNC aponta que o cartão de crédito continua sendo a principal modalidade de dívida entre as famílias brasileiras, presente em cerca de 85% dos casos de endividamento. Ao mesmo tempo, o Mapa da Inadimplência da Serasa mostra que o valor médio devido por consumidor, ultrapassa R$ 6.800, enquanto o total das dívidas já supera R$ 568 bilhões.


Um fator relativamente novo, também tem ganhado peso nesse cenário: as apostas online. Segundo estudo da CNC, os gastos das famílias brasileiras com bets saltaram de praticamente zero, em 2023, para mais de R$ 30 bilhões por mês em março de 2026, um crescimento de mais de 500% em apenas três anos. O mesmo levantamento estima que a inadimplência associada às apostas já retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista brasileiro. Ainda existe debate entre especialistas sobre o real peso das bets frente a outros fatores, como os juros e o crédito consignado, mas o fato é que esse novo hábito financeiro já está presente na rotina de milhões de trabalhadores brasileiros.


Quando essa pressão financeira se prolonga por meses, ou até anos, seus efeitos deixam de ser exclusivamente econômicos e passam a impactar diretamente o comportamento, a saúde e o desempenho profissional.



Por que o RH precisa olhar para isso agora?


O endividamento dos colaboradores passou a representar um desafio estratégico para as empresas. Quando um profissional enfrenta dificuldades para pagar suas contas, os impactos dificilmente ficam restritos à vida pessoal, afetando diretamente indicadores importantes para a gestão de pessoas.



Outra pesquisa, aponta que 30,6% dos entrevistados afirmam que a preocupação constante com dinheiro afeta diretamente o desempenho no trabalho, com 59,1% relatando sintomas como perda de sono, 54,8% perda de foco, e 20,3% mau-humor com colegas.


Os primeiros reflexos costumam aparecer no aumento do absenteísmo, quando o colaborador precisa se ausentar para renegociar dívidas, resolver questões bancárias ou lidar com problemas decorrentes do estresse financeiro. Em muitos casos, porém, o impacto é ainda mais silencioso: o presenteísmo. O colaborador está presente fisicamente, mas sua atenção está voltada para preocupações financeiras, comprometendo a concentração, a tomada de decisões, a produtividade e a qualidade das entregas.


Além disso, o endividamento está diretamente relacionado ao aumento de situações psicossociais, com mais colaboradores relatando ansiedade, estresse, insônia e outros problemas de saúde mental, o que pode gerar mais afastamentos e maior demanda por programas de apoio psicológico. Até aumento do turnover pode ocorrer, visto que alguns profissionais em situação financeira delicada, tendem a buscar novas oportunidades motivados pela necessidade imediata de um aumento de renda, ou para retirada do FGTS. O que consequentemente, eleva diversos custos, como: de demissão, recrutamento, treinamento e também para programas de retenção de talentos.



Quais sinais o RH e as lideranças devem observar?


O estresse financeiro raramente aparece de forma explícita e são poucos os colaboradores que falam abertamente sobre seus problemas pessoais. Por isso, é importante que lideranças e times de gestão de pessoas, saibam reconhecer sinais indiretos, que costumam aparecer antes, para evitar que o problema virar uma crise ainda maior e mais complexa para resolver:


  • Pedidos frequentes de adiantamento salarial ou dúvidas recorrentes sobre empréstimo consignado e descontos em folha;


  • Aumento de faltas ou atrasos sem justificativa clara, especialmente próximo ao fechamento do mês;


  • Queda perceptível na qualidade das entregas, dificuldade de concentração ou mais erros em tarefas rotineiras;


  • Maior irritabilidade ou impaciência nas interações com colegas de equipe;


  • Isolamento social dentro do ambiente de trabalho, evitando conversas informais ou atividades em grupo;


  • Maior sensibilidade a propostas externas, buscando novas oportunidades motivado por necessidade financeira imediata, e não por crescimento de carreira;


  • Dificuldade para se engajar em programas de desenvolvimento, treinamentos ou projetos de médio e longo prazo.


Nenhum desses sinais isolados confirma uma situação de endividamento, mas quando aparecem de forma recorrente, em um colaborador ou em múltiplos times, são um indicativo de que o bem-estar financeiro da equipe merece atenção estruturada, e não apenas reação pontual.



O que o RH pode fazer para que isso não piore?


Não é de responsabilidade do RH, resolver a vida financeira dos colaboradores, muito menos invadir a privacidade de cada um. Mas cabe criar condições para que as pessoas acessem recursos que ajudem a atravessar momentos difíceis com mais segurança: com ações educativas, orientações adequadas e benefícios de apoio às necessidades reais do colaborador.


O impacto de programas estruturados de bem-estar financeiro já está documentado: segundo dados do setor, empresas que investem nesse tipo de iniciativa registram ganhos relevantes de produtividade e reduções expressivas no absenteísmo, além de maior estabilidade e engajamento das equipes. Ou seja, cuidar do bem-estar financeiro dos colaboradores não é apenas uma pauta de employer branding, é uma decisão com retorno mensurável sobre indicadores que a gestão já acompanha.


Por isso esse cenário exige uma atuação proativa, já que esperar o problema virar uma crise para só então buscar ajuda, deixa de ser a ação mais inteligente.


Essa realidade também amplia a demanda sobre o próprio RH, que passa a lidar com pedidos de adiantamento salarial, dúvidas sobre empréstimos consignados, descontos em folha e outras questões que extrapolam sua atuação tradicional.


Em muitos casos, essas situações envolvem aspectos jurídicos, renegociação de dívidas, contratos bancários, cobranças abusivas, fraudes financeiras e direitos do consumidor, para os quais o RH não tem, e não precisa ter, expertise própria.



Cuidado jurídico como parte da estratégia de bem-estar financeiro


Cada vez mais empresas investem em ações de educação financeira, consultorias e programas de apoio aos colaboradores. No entanto, muitas situações de dificuldade financeira, não se resolvem apenas com planejamento ou organização do orçamento.


Grande parte delas exige orientação jurídica especializada para que o colaborador compreenda seus direitos, tome decisões mais seguras e evite que pequenos problemas se transformem em conflitos maiores.


Nesse contexto, o cuidado jurídico torna-se um complemento natural das iniciativas de bem-estar financeiro. Ao oferecer acesso facilitado à orientação jurídica, as empresas ajudam seus colaboradores a enfrentar desafios relacionados ao endividamento com mais segurança e agilidade, reduzindo impactos na saúde mental, na produtividade e no clima organizacional.


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